Crônicas da greve

O porquinho patriota

Tia Dida tem 78 anos, quase 79.

Seu amor pelos bichos vem desde sempre.

Amor verdadeiro, daqueles de pegar animais na rua e tratar com carinho e dedicação.

Não consigo lembrar de quantos gatos e cachorros ela já salvou, as vezes somente pela força da teimosia.

Há tempos, numa madrugada dessas, achei numa rua deserta uma pomba -ou um pombo, jamais descobrimos- atropelada.

Viva ainda...coloquei a danada dentro do casaco -eu estava de moto, um frio de rachar paralelepípedo- e sem saber o que fazer, levei a bichinha pra tia Dida.

Ao menos, pensei, ela não morre no meio da rua.

Ledo engano, o meu.

Durante um mês, Tia Dida cuidou da pomba, alimentou, aqueceu, enquanto suas asas, quebradas, melhoravam.

A danada dava um enorme trabalho, cagando pra todo lado, arrulhando feito doida toda manhã...

Finalmente, um belo dia, solta finalmente, e recuperada, voou feliz e foi embora.

Mas, naquela noite, Tia Dida dormiu mal, muito mal.

Acostumada a acompanhar as notícias da greve, topou de repente e por azar com uma matéria sobre porquinhos, que morriam de fome aos milhares numa fazenda de criação.

A imagem dos animaizinhos lambendo o chão de fome a acompanhou durante a noite, em infindáveis pesadelos.

Quando me contou, triste, tentei um argumento idiota e sem sentido algum, já que não sabia mesmo o que dizer.

Disse que, afinal, esses eram porquinhos patriotas...que isso tudo afinal não era em vão.

No fim, o que importava era mudar o Brasil para melhor.

Mas a imagem, dessa vez, grudou na minha cabeça.

Será que não somos todos iguais aqueles porquinhos, sacrificados todos os dias com impostos, multas, taxas, roubalheira sem fim?

E pior, pra nada?

*Publicado originalmente em maio de 2018, tempo de greves, tempo de esquerda...

marcoangelifull

publicitário, artista plástico e cidadão

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