Artista de verdade voa

Guga Domenico, do Língua de Trapo: paciência, não posso vender minha arte como um mercador

"Torço para que os conservadores permaneçam no poder mais algumas décadas porque só assim poderemos ver o fim das sinecuras, das patotas, do aparelhamento ideológico em TODOS os órgãos relativos à Cultura neste país.

E eu nem sou um artista que pode reclamar tanto, mas reclamar posso, sim.

Quando dava os primeiros passos na carreira fui um dos fundadores de uma banda que caiu nas graças da esquerda, mesmo - e digo pelas minhas músicas, por exemplo O que é isso, companheiro? - sendo uma sátira aos engajados no mesma estirpe dos atuais lulalivre.

Parece que eles não entenderam a piada.

Depois que saí para cuidar da minha carreira solo os que ficaram se engajaram no petismo, o que considerei um erro, mas cada um faz da sua vida o que bem entende, né?

O pedigree da banda se colou em minha imagem e nome e algumas facilidades surgiram, mas na linha do que esperavam de mim, aquele antigo engajamento inicial.

Pediam que eu dissesse coisas relacionadas à causa revolucionária, mas resisti porque não acredito que este caminho seja bom, procurei alternativas, mas a ideologia impregnada nos aparelhos culturais é hegemônica e paguei o preço.

Paciência, não posso vender minha Arte como um mercador, eu a tenho como missão de vida, meu testemunho com o que há de mais sagrado na vida e fiz (faço) de tudo para deixá-la livre das interferências mundanas.

Se tivesse aderido, se tivesse entrado na onda talvez as coisas fossem mais fáceis do ponto de vista material, mas eu estaria enterrando meu talento por alguns dinheiros.

Não, não, isto é Divino, preciso cuidar com amor e carinho.

Dia desses estava olhando meus arquivos de realizações e me deparei com um folder da programação de um evento que participei através da Secretaria de Cultura do Estado de São Paulo, 1986.

Shows, palestras, mesas de discussão, exposições, intervenções, naquele tempo já estava tudo dominado, eu é que não via - como alguns amigos artistas ainda hoje veem e não enxergam porque o óbvio é mais difícil de entender.

Num cálculo rápido, 80% do que se falou e apresentou naqueles 10 dias do evento eram variações da mesma temática.

Só depois de muito ler e estudar o comportamento humano pude compreender que para isto existe um nome: marxismo cultural.

Eles, os comunistas, ficam bravos quando a gente diz assim na cara, sem vaselina, mas é isto.

Marxismo cultural, ocupação de espaços para transmitir a ideia veneno da luta de classes, o rancor, o ressentimento e o recalque.

Porém, eles dizem "mais amor, por favor", "discurso de ódio", etc.

Atribuem ao adversário sua ação.

Não se deve levar a sério, são uns pandegos, massa de manobra, inocentes úteis.

Nós, artistas, temos um papel importante a cumprir neste mundo e isto inclui manter a vigilância sobre o poder mundano, dizer que ele pode muito, mas não pode tudo.

A nossa causa, única causa, é a liberdade e expressar opiniões é um direito, quando não obrigação mesmo.

Por isto aparelhar os meios de comunicação é um dos piores crimes que se pode fazer com o povo porque isto é emburrecedor, limita o entendimento da totalidade, transforma o consumidor de arte em ignorante programado para responder a estímulos fabricados por cientistas sociais.

Desculpe, bebê, mas artista tem mais capacidade de leitura da realidade do que sociólogo.

Artista trabalha no mundo real e acessa o mundo abstrato.

A Ciência segue ideias concebidas na mente de pessoas que não estão amassadas pela realidade, artista de verdade voa.

No Antigo Egito, quando era levado ao conhecimento do faraó que havia um artista entre os seus, mandava buscar e dava apoio e proteção para que o artista pudesse se dedicar integralmente. Acreditavam os egípcios que artista tinha canal direto com Deus. Temos, por isto não devemos prestar conta aos Césares.Há alguns anos fui parecerista num edital da Secretaria de Estado do Tocantins.

Eu e mais duas pessoas escolheríamos livros inéditos que seriam financiados pelo governo para publicação e divulgação da Cultura local.

Já de cara notei que os jurados de outras áreas tinham uma forte tendência ideológica.

De esquerda, claro.

No bate-papo com meus dois colegas (um poeta e uma professora de História da universidade local) percebi que ela tinha perturbações ideológicas que a tornavam insensível para julgar poesia.

Para não correr o risco de participar de uma fraude onde se premiaria obras engajadas na causa revolucionária em detrimento de poesias simplesmente bonitas e bem urdidas, alertei que deveríamos privilegiar os bons poetas independente de sua pregação ideológica.

A professora não gostou da ideia, mas o outro colega que também era poeta, aprovou.

A Arte venceu.

A esquerda está comandando nossa Cultura há décadas, mesmo durante o regime militar.

Roberto Marinho empregou o que chamou de "meus comunistas" e não queria que fossem tocados, como Dias Gomes, Ferreira Gullar, Mario Lago, etc.

Quando artistas ideologicamente alinhados com a esquerda reclamam que estão sendo censurados pelo governo atual, isto não passa de esperneio de quem está vendo seu poder de influência se esvair.

É uma piada!

Em primeiro lugar, não há censura oficial no Brasil.

Existe algo que a esquerda sempre exerceu: curadoria.

A escolha do que vai ser apoiado pelo governo atual deve estar de acordo com as ideias dos escolhidos pelo presidente para fazer esta triagem e não com as dos que perderam a eleição e defendem propostas antagônicas.

Será tão difícil entender uma coisa dessas?

É, sim.

Há dificuldade porque o leigo não liga o produto Arte com a Política, mas quem trabalha na esquerda sempre ligou (quem leu Antonio Gramsci sabe do que estou falando) e privilegiou artistas que estavam sintonizados com as diretrizes da esquerda internacional.

Agora o trabalho está direcionado para outra lógica e os alto-falantes estão gritando tolices intermináveis simplesmente porque (não duvide do que digo) a maioria dos artistas é apenas massa de manobra, não estudam política, têm simpatias ideológicas, acreditam que o comunismo é igualdade e justiça, e outras barbaridades.

A cada escolha do Secretário da Cultura o EBS (Exército dos Brancaleones Socialistas) parte para a guerra cultural e tenta minar a credibilidade do escolhido para o posto onde verá que seus dias de glória serão ameaçados.

Tiram frases do contexto, fazem recortes, editam, simulam para parecer que o douto é tolo e eles, os tolos, são os doutos. Nada que surpreenda quem estudou o comportamento e a estratégia da esquerda durante as últimas décadas.

Olavo de Carvalho tem razão.

Roger Scruton tem razão. Thomas Sowell tem razão. Milton Friedman tem razão.

Nelson Rodrigues tem razão.

Theodore Dalrymple tem razão.

Mario Ferreira dos Santos tem razão.

Muita gente odeia a esquerda porque já entendeu que quando ela chega ao poder o povo empobrece, e a elite fica bilionária ainda não entendeu que a guerra nem começou ainda.

A Cultura é uma das armas letais para derrotar esses retrógrados que bajulam tiranos e ditaduras, mas se auto proclamam progressistas.

Prestigiem espetáculos que privilegiam a Arte e não a causa.

Prestigiem artistas que honram sua profissão e não submetem seu trabalho a bajuladores ideológicos."

*A banda Língua de Trapo surgiu em 1979, na Faculdade de Comunicação Cásper Líbero, em São Paulo.

Fez sucesso entre o público jovem e universitário, pelo conteúdo de crítica política e social.

Foi um dos destaques do movimento Vanguarda Paulista, grupo de independentes donos de seus próprios selos e sem interferência de gravadoras.

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