Acessibilidade no Brasil: sejamos persistentes!

Por Dirceu Pio

Tenho duas reflexões que mostram, realisticamente, o quanto será longo e penoso o caminho que teremos de percorrer para tornar este país, o Brasil, mais inclusivo!

Primeira: “Só avançaremos em acessibilidade no dia em que as pessoas em geral olharem para uma necessidade especial com os olhos de quem a tem.”

Segunda: “Uma cidade só vai poder ser chamada de acessível no dia que o mais anônimo dos serventes de pedreiro tiver consciência de que, ao implantar um desnível no piso, ainda que seja de apenas um centímetro, estará criando um obstáculo intransponível ou um fator de risco de queda grave a um idoso ou a uma PNE (Pessoa com Necessidade Especial)”.

Sou otimista, haveremos de vencer essa guerra!

Quero primeiro compartilhar com vocês um pouco da minha história, embora pense que, num país que possui nada menos de 45 milhões de pessoas com alguma deficiência, falar de mim mesmo é quase uma heresia.

Mas a causa é boa, vocês compreenderão.

Sou jornalista há mais de 50 anos e, em julho de 2013, ao realizar o implante de três pontes cardiovasculares, enquanto era submetido a várias horas de circulação extracorpórea, tive um AVC isquêmico e fiquei com meu lado direito (braço e perna) paralisado.

Uma longa viagem

Em janeiro de 2018, depois, portanto, de quase cinco anos de fisioterapia e quatro internações na Rede de Reabilitação Lucy Montoro (Morumbi-SP), saí de férias de carro e de cadeira de rodas para passar uma temporada ao Sul de Santa Catarina (Barra da Ibiraquera, Imbituba), a praia que eu e minha família frequentamos desde 1982.

Moramos na região de Campinas (SP) e quis viajar de carro, movido pela curiosidade de repórter, para testar a acessibilidade dos mais de dois mil quilômetros de rodovias, praias, postos de gasolina, restaurantes, hotéis, comércio etc., de três estados – S. Paulo, Paraná e Santa Catarina.

Ao voltar para casa, 30 dias depois, estava assustado e perplexo com a realidade que encontrei: o país que tem uma legislação de apoio e proteção aos deficientes das mais avançadas do mundo, ainda trata as suas PNEs com descaso, negligência e desrespeito.

Na ida e na volta, parei em 40 postos de gasolina; dormimos – eu e minha esposa e cuidadora, Susana Godoy - em dois hotéis diferentes; tomamos refeições em mais de 50 bares e restaurantes; visitamos lojas comerciais de todos os portes e – pasmem ! – só encontramos dois postos de gasolina com banheiros totalmente acessíveis, os famosos Sinuelo, em Barra Velha, Santa Catarina, do lado direito e esquerdo da BR-101.

Não molhei os pés na água do mar

Por falta de acesso, nem consegui molhar os pés na água do mar!

Ficamos em casas alugadas para constatar, também, que a construção no Brasil parece ignorar a existência dos deficientes: portas estreitas, degraus desnecessários, banheiros e pisos inseguros.

O cenário seria desalentador se eu não tivesse enxergado algumas luzes no fim do túnel: sim, foi encorajador perceber que aqui e ali a semente da acessibilidade começa a germinar.

Vou dar alguns exemplos: a maioria dos donos de restaurantes, bares e hotéis com os quais conversei mostraram-se bastante receptivos a críticas e sugestões que procurei fazer com clareza e objetividade.

Passaram-me a impressão de que já percebem o aumento da demanda pela acessibilidade e muitos demonstram que querem acertar, embora não saibam direito como fazê-la.

Exceto os hotéis e alguns poucos postos de gasolina, o comércio em geral demonstra desconhecer tanto o Estatuto das PNEs quanto as normas da ABNT - Associação Brasileira de Normas Técnicas. Como a demanda cresce e a consciência começa a brotar, presumo que faltam apenas estímulo e orientação.

Dedicação total à acessibilidade no Brasil

Quase dois anos já me separam daquela viagem, período em que me dediquei a estudar o problema da acessibilidade.

Li e pesquisei muito, conversei com mais de 50 pessoas especializadas nos mais diferentes aspectos do tema e acho que cheguei hoje a boas estratégias para acelerar a acessibilidade no Brasil.

Compartilho-as com vocês para que possam opinar, avalizar e contribuir.

Minha disposição é manter essas estratégias como um processo em movimento, aberto à participação de todos os interessados:

  1. Atacar o problema via município, o local onde todas as pessoas moram, estudam, trabalham e fazer da Prefeitura e da Câmara de Vereadores o principal ente implementador, orientador, incentivador e fiscalizador da acessibilidade. E envolver no programa todas as entidades representativas da sociedade;

  2. Começar a agir pela internet inclusiva, um modo de incorporar mais rapidamente as PNEs à sociedade e ao mercado;

  3. Estruturar (tarefa que deve ser repassada a universidades) uma disciplina chamada ACESSIBILIDADE a ser implantada o quanto antes nos quatro níveis de ensino (pré-escola, básico, colegial – inclusive o ensino técnico - e superior);

  4. Trazer o público em geral para o apoio ao programa via publicidade massiva nos meios de comunicação, via teatro de rua, via teatro inclusivo etc;

  5. Criar uma equipe especializada para orientar tecnicamente o comércio e a indústria a produzir acessibilidade e expedir um selo de qualidade e certificação do ambiente acessível;

  6. Instituir um Prêmio para o melhor ambiente acessível a começar pela casa e pela calçada em frente à casa;

  7. Cuidar para que o poder público seja exemplo e modelo de acessibilidade;

  8. Desenvolvidos cada um dos projetos, lançar um plano de arrecadação de fundos via crowdfunding, com o objetivo de prover, pela iniciativa privada, grande parte dos recursos exigidos pelo programa (colocar entidades de classe, como as associações comerciais ou a federação das indústrias, para cuidar da gestão e do dinheiro, com toda transparência hoje possível pela internet);

  9. Conectar as cidades, via internet, para que haja uma incessante troca de experiência e know-how entre elas, função que caberia às entidades que representam o conjunto dos municípios brasileiros, como a CNM - Confederação Nacional dos Municípios;

  10. Criar no município um polo de tecnologia inclusiva com pesquisa e desenvolvimento intensivos.

Estou certo que o município que se lançar com destemor e persistência na implementação desses 10 pontos dará passos avantajados na direção daqueles objetivos implícitos nas duas reflexões que me serviram de abertura a este artigo.

*Publicado originalmente no site do Instituto de Longevidade Mongeral Aegon

Dirceu Pio

Dirceu Pio é jornalista com especialização em comunicação corporativa e empreendedorismo e embaixador de acessibilidade no Instituto de Longevidade Mongeral Aegon.

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