Liberdade era uma calça velha, azul e desbotada.

Nossa geração tomava refrigerante só no fim de semana.

Roupa nova, só no domingo.

A informação era escassa, quem quisesse se informar tinha que correr atrás, ler e ler.

A ditadura militar apavorava, cortava, censurava.

Gay, hetero, branco, negro, ninguém afinal ligava muito pra nada disso.

Macho era o Jece Valadão.

Sem regras.

Caras bacanas agiam dignamente, e imbecis eram imbecis, independente de sua orientação sexual ou cor da pele.

Ter o cabelo comprido, como eu tinha, significava sair na rua e ser chamado de 'viado'.

Quem tinha cabelo comprido, claro, não ligava pra isso.

Havia um certo orgulho e uma certa ideologia ingênua atrás disso tudo.

Todos os governos roubavam, naturalmente, o que é uma tradição, mas com certa ética.

Eram governos de merda, mas não tão de merda quanto hoje.

Carro sem freio a disco e sem cinto de segurança. Lona nas quatro rodas.

Parar com eles de repente na chuva forte era uma façanha.

Luxo era um TV colorida último tipo.

Ou um telefone sem fio.

Ou, o supra sumo mega, o fax.

Ou, muito mais tarde, aqueles tijolos enormes que mal funcionavam, uma revolução que se chamava celular.

Eu andava de moto por aí, parava pra atender e me olhavam como se tivesse vindo direto de Marte.

A moto top era a RD 350, uma merda, chamada de viúva negra porque tinha motor mas não tinha estabilidade nem freio.

Matou muita gente boa.

Refrigerante da hora, Grapette. Mamma mia.

Ainda não tinham inventado os empregos para os imbecis que cospem cem regrinhas por dia ensinando os cidadãos a conviverem e a agir em sociedade, cuja única função na verdade é manter o emprego desses mesmos imbecis.

Então os cidadãos agiam de acordo com seu próprio caráter e bom senso, e a coisa rolava.

Game, só Atari. E não era uma doença, era um joguinho.

Sexo, uma aventura, um romance. Sempre.

Antes da pílula, naturalmente.

E o casamento...o casamento ainda era um sonho, um objetivo, não um negócio.

Sem o Google, fazíamos coisas estranhas, como ler.

Sempre e sempre.

Enfim, sobrevivemos.

E cá estamos nós, infelizes, aprisionados em nossas casas, diante de nossos computadores.

E nos perguntamos, perplexos: o que aconteceu?

*Publicado originalmente em 2017

marcoangelifull

publicitário, artista plástico e cidadão

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