JACK KEROUAC, ON THE ROAD

Bob Dylan declarou que On The Road mudou sua vida. Mas ainda é pouco para tentar definir o manuscrito de Jack Kerouac, escrito em 1951, e que colocou na história os beats, os hipsters -espécie de visionários- e toda uma cultura americana underground, que existia, arfante e ardente, nas marginais da sociedade da América pós-guerra, na voz do povo das estradas poeirentas. Estar diante do manuscrito original -agora- de Jack Kerouac, escrito de um folego só em três semanas, num rolo de papel de 36 metros, depois de dois anos de ensaios...é exatamente como parar desavisado diante de uma pintura que imediatamente te arrebata, eriça os pelos de tua nuca e te transporta para cada gesto do pintor, cada pincelada sobre o canvas.

Aliás, o próprio Kerouac, entusiasmado em descobrir novas maneiras de escrever e se livrar da tradição do romance bem composto europeu, definia sua própria técnica como sketching, esboço sem correções, escrito num fluxo só, sem parar. Por essas e outras On The Road é mesmo a bíblia da geração beat, influenciou as gerações subsequentes fortemente, e hoje, 62 anos depois, é estranhamente contemporâneo, numa sociedade global cada vez mais regrada, comportada e forçosamente 'políticamente correta'. On The Road colocou Jack Kerouac, ou Jean-Louis Lebris de Kerouac, nascido em 12 de março de 1922 em Massachussets, na galeria dos maiores escritores americanos, especialmente do período pós-guerra.

Kerouac escreveu o manuscrito em abril de 1951, escutando jazz num velho rádio, curtindo café e benzedrina o tempo todo, e o terminou em 3 semanas.

Do manuscrito original de On The Road:(...) Eu podia ouvir tudo, os sons da rua se misturavam ao zumbido do néon do meu hotel. Nunca me senti tão triste em toda a minha vida. L.A. é a mais solitária e brutal de todas as cidades americanas; em Nova York fica frio pra cacete durante o inverno mas existe um doido sentimento de camaradagem em algum lugar em algumas ruas. L.A é uma selva.

Mas o livro só seria publicado em 1957, anos depois e inúmeras modificações depois, sempre exigidas por editores e feitas por Kerouac, em tentativas frustradas para editar seu manuscrito. A edição final troca inclusive os nomes verdadeiros dos personagens, exigência das editoras, com paura de eventuais processos. Assim, Neal Cassady vira, na edição publicada em 1957, Dean Moriarty e o próprio Jack, Sal Paradise. Kerouac faleceu em 1969, na Flórida, aos 47 anos, de cirrose hepática. Na estrada, Kerouac e seus personagens buscam e buscam o significado para a vida, o conhecimento, a sensação da noite americana...e o significado está lá adiante, sempre e sempre, sem jamais ser alcançado. Mas o caminho percorrido nessa busca talvez seja o que realmente importa. A estrada.

A estrada estendida diante de Kerouac, em 1951,e hoje ainda...estendida á nossa frente.

*Publicado originalmente em setembro de 2012

marcoangelifull

publicitário, artista plástico e cidadão

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