Admirável mundo novo

Como artista plástico, já penso no futuro: vou pintar em parede de caverna.

Nestes dias, numa alegre discussão com a Tereza Mainardi, eu reclamava de um videozinho pavoroso que havia visto, uma entrevista sem imagem.

Na tela, durante uma eternidade, dois personagens estáticos -foto de carteira de motorista- serviam de fundo para uma longa e bostejante entrevista.

Reclamei.

Nunca gostei daqueles vídeos de música onde a capa do disco fica ali parado, como se música não fosse movimento.

A Tereza me comunicou oficialmente que os podcasts eram o futuro do mundo.

O futuro das comunicações entre os seres humanos e não tão humanos.

As pessoas, ao que parece, já não tem tempo nem interesse em ver imagens, vídeos.

Só ouvem e ouvem.

Resisti bravamente à ideia,claro, sou um homem de imagens.

Não adiantou muito e descobri ainda que quem curte imagens são só os velhinhos, a nova geração vai mesmo de fone de ouvido e iPhone five stars.

O Enio, que andava mal humorado por ali, comentou certeiro:

-Voltamos pra época do radinho de pilha.

Verdade, argumentei, é a mesma coisa que eu via quando criança, meu pai ouvindo jogo de futebol, o radinho grudado na orelha.

Aquele radinho, lembram, com as pilhas amarelinhas e tal.

Aquele mesmo que foi inventado lá por 1890, por Marconi, Tesla ou seja lá quem for...e dizem até que aqui na terra do pau brasil foi o padre Roberto Landell quem inventou o aparelhinho mágico, fazendo as primeiras transmissões de rádio do mundo.

Mas isso é só história de velhinhos.

Depois vieram os fones de ouvido.

E depois o iPhone.

E mais nada?

Toda essa evolução tecnológica, pesquisas sem fim, pra esse destino melancólico?

Porque, perguntei, qual a grande diferença entre o velho radinho e o iPhone vendido em suaves prestações nas Casas Bahia e orgulho dos socialistas esquerdinhas, já que é só áudio mesmo?

Só a quantidade de informação despejada na orelha da vítima, que no final acaba assimilando muito pouco do que ouviu.

E será que o ‘sucesso’ daquele boneco inflável, o Felipe Neto, que a mídia adora, se deve só às asneiras ouvidas?

Ou será que o sucesso veio no rastro das macaquices vistas?

Ninguém sabia, não importava mesmo, e a conversa acabou ali.

De qualquer forma, fica esse gosto de que andamos pra trás.

Involuímos.

Se nossos símbolos de modernidade e sucesso são o iPhone e Felipe Neto, estamos mesmo na roça.

E no passado.

Como artista plástico, já penso no futuro: vou pintar em parede de caverna.

Estou, inclusive, procurando uma bacaninha nas vizinhanças pra começar.

marcoangelifull

publicitário, artista plástico e cidadão

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